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Hérnia de Disco Tem Cura? O Que a Ciência Já Comprovou

  • Dra Ronicleide Batista
  • 15 de jul.
  • 9 min de leitura

O que é a hérnia de disco e por que ela dói tanto?

Imagine sua coluna como um conjunto de pequenas almofadas entre os ossos (as vértebras). Essas almofadas são os discos intervertebrais. Um disco saudável tem um centro gelatinoso, chamado núcleo pulposo, protegido por um anel firme de fibras, o ânulo fibroso. A hérnia de disco acontece quando esse anel se rompe ou enfraquece, permitindo que o material gelatinoso escape para o canal vertebral, onde estão os nervos. A dor intensa, que muitas vezes desce pela perna (a temida dor ciática), não vem apenas da compressão mecânica do nervo. O principal vilão é a inflamação química. O material que escapou do disco é reconhecido pelo seu sistema imunológico como um “corpo estranho”, desencadeando uma reação inflamatória potente que irrita a raiz nervosa.


A minha hérnia de disco pode desaparecer sozinha?

Sim, esta é a notícia mais importante e cientificamente comprovada. Seu corpo tem um mecanismo natural de defesa que pode “fagocitar” (engolir e digerir) o fragmento da hérnia. O processo é chamado de reabsorção discal espontânea. O mesmo processo inflamatório que causa a dor aguda também envia células especializadas (macrófagos) para limpar a região. Essas células liberam substâncias que literalmente dissolvem o tecido herniado. Esse fenômeno é mais comum e mais rápido em hérnias do tipo extrusa e sequestrada, que são justamente as que mais expõem o material ao sistema imune.

Um dos estudos mais impactantes sobre o tema foi publicado por Chiu e colaboradores na revista Spine em 2015. Eles acompanharam pacientes com ciática e hérnia de disco lombar comprovada por ressonância magnética e observaram que a reabsorção completa do material herniado ocorreu em 70,4% dos casos com tratamento não cirúrgico. Os pesquisadores concluíram que "a reabsorção espontânea da hérnia de disco lombar é um fenômeno comum e deve ser considerada na tomada de decisão terapêutica" [1].

Outro estudo de referência, publicado por Benson e colegas no BMJ Clinical Evidence, reafirmou que cerca de 75% dos pacientes com ciática aguda melhoram significativamente em até 3 meses sem qualquer intervenção cirúrgica [2].

Isso significa que não preciso fazer nada? Não. Significa que o tempo é seu maior aliado, e tratamentos conservadores (não cirúrgicos) são extremamente eficazes para controlar a dor e a inflamação enquanto seu corpo trabalha na cura natural. Como veremos, a fisioterapia tem um papel central nesse processo.


Quanto tempo dura uma crise de hérnia de disco?

A história natural da doença é muito favorável. A evolução típica de uma crise aguda de hérnia de disco com ciática pode ser dividida da seguinte forma, baseada em diretrizes clínicas e coortes observacionais [2]:

Fase

Duração Estimada

O que acontece

Fase Aguda Intensa

0 a 4 semanas

Dor intensa, inflamação máxima, limitação funcional importante. O foco do tratamento é o alívio da dor e a modulação da inflamação.

Fase de Recuperação Subaguda

4 a 12 semanas

A dor começa a ceder, a mobilidade melhora gradualmente. O foco do tratamento se desloca para a recuperação do movimento e o fortalecimento da musculatura protetora da coluna.

Fase de Cura e Remodelação

3 a 12 meses

A maioria dos pacientes atinge a cura clínica (ausência de dor limitante e retorno às atividades). O processo de reabsorção do disco pode continuar por meses.

Atenção aos sinais de alerta ("Bandeiras Vermelhas"): Uma pequena parcela dos pacientes pode precisar de cirurgia de urgência. Se você apresentar dor que não alivia com nada, perda progressiva de força (como "pé caído" - não conseguir levantar a ponta do pé), dormência na região genital, dificuldade para segurar a urina ou fezes (síndrome da cauda equina), procure um serviço de emergência imediatamente.


Qual o papel da ressonância magnética no diagnóstico?

A Ressonância Magnética (RM) é um exame incrível, que trouxe uma revolução no diagnóstico. Ela permite visualizar com precisão os discos, nervos e ligamentos. No entanto, a RM não é um exame de triagem e deve ser interpretada com cautela.

O dado científico mais surpreendente é que alterações na coluna NÃO significam necessariamente dor. Estudos clássicos de imagem mostraram que:

  • Entre 20% e 30% de pessoas entre 20 e 40 anos totalmente SEM DOR apresentam hérnia de disco na ressonância.

  • Esse número sobe para mais de 50% em pessoas acima de 60 anos [3].

Isso significa que a hérnia de disco pode ser um achado incidental, uma "rugazinha" da coluna. O diagnóstico de hérnia de disco sintomática é clínico. O fisioterapeuta ou médico escuta a sua história, avalia seus movimentos, testa sua força, sensibilidade e reflexos, e usa a RM para confirmar e correlacionar a hipótese clínica. Uma RM feita "por rotina" pode levar a um diagnóstico equivocado e tratamentos desnecessários, e é por isso que sua solicitação deve ser criteriosa.


Quais são os tratamentos que realmente funcionam?

Este é o ponto central. A ciência já demonstrou, com alto nível de evidência, quais caminhos são eficazes. A cirurgia, para a maioria dos casos, não é mais eficaz que um bom programa de fisioterapia a longo prazo.

Fisioterapia Baseada em Evidências: a base do tratamentoUma revisão sistemática da Cochrane, o mais alto padrão de síntese científica, concluiu que programas de exercícios supervisionados são eficazes na redução da dor e na melhora da função em pacientes com dor lombar crônica. Para a hérnia de disco aguda, o objetivo é acalmar a dor e depois reabilitar. As estratégias de fisioterapia com melhor evidência são:

  1. Educação em Neurociência da Dor: O primeiro e mais poderoso passo. Entender que a dor não é sinônimo de dano tecidual, que o corpo tem capacidade de se curar e que o movimento é seguro reduz o medo (cinesiofobia) e a ansiedade, quebrando o ciclo de dor crônica [4].

  2. Método de Estabilização Segmentar (Core): Focado no fortalecimento dos músculos profundos da coluna (multífidos, transverso do abdome), que funcionam como um "espartilho" interno de proteção [5].

  3. Terapia Manual: Mobilizações articulares e técnicas de tecidos moles podem ser usadas como adjuvantes para aliviar a dor e melhorar a mobilidade no curto prazo, facilitando o início dos exercícios [6].

  4. Exercícios Direcionais (Metodologia de McKenzie): A avaliação identifica movimentos que centralizam a dor (tiram a dor da perna e a trazem para as costas) e estes são usados como parte do programa de exercícios [7].

Qual a função dos medicamentos?Na fase aguda, os medicamentos são aliados para controlar a dor e permitir o movimento, sob prescrição médica. A dipirona e o paracetamol são a primeira linha, reservando-se os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) pelo menor tempo possível. O uso de opioides para hérnia de disco não é recomendado por diretrizes internacionais devido ao alto risco de dependência e pouca eficácia a longo prazo [8].

E as infiltrações?As injeções epidurais de corticosteroides têm um papel específico: proporcionar alívio da dor na ciática aguda e intensa que não respondeu ao tratamento inicial, criando uma "janela de oportunidade" para que o paciente consiga iniciar a fisioterapia sem dor. O efeito é transitório (semanas a meses) e não altera a história natural da hérnia a longo prazo [9].

Quando a cirurgia (microdiscectomia) é necessária?A cirurgia de hérnia de disco é um procedimento seguro e eficaz para um grupo muito específico de pacientes. A principal indicação é:

  • Dor ciática intensa e incapacitante que persiste por mais de 6 a 12 semanas apesar de tratamento conservador (fisioterapia e medicamentos) bem conduzido.

  • Déficit neurológico progressivo (perda de força que está piorando).

  • Síndrome da cauda equina (emergência).

Um estudo marcante, o SPORT trial (Spine Patient Outcomes Research Trial), publicado no JAMA, comparou cirurgia versus tratamento conservador em pacientes com hérnia de disco. Os resultados mostraram que ambos os grupos melhoraram significativamente ao longo do tempo. A cirurgia proporcionou uma melhora mais rápida da dor ciática, mas após 4 anos, os resultados funcionais entre os pacientes operados e não operados eram estatisticamente semelhantes [10].

Quais tratamentos não têm comprovação científica?

A mesma ciência que indica o que funciona também nos alerta sobre o que não tem eficácia comprovada e, portanto, deve ser evitado. É fundamental usar o pensamento crítico e desconfiar de promessas de cura milagrosa e soluções instantâneas. Alguns exemplos do que a evidência atual desaconselha:

  • Repouso absoluto no leito: Essa é uma recomendação do passado, hoje totalmente contraindicada. O repouso prolongado (mais de 2 dias) leva à atrofia muscular, rigidez articular, perda de condicionamento e piora do prognóstico [11].

  • Cozimento ("mesa de inversão"): Não há nenhum estudo de qualidade que demonstre que alongar a coluna com mesas de inversão reverta uma hérnia ou acelere a cura.

  • Acupuntura, Ventosaterapia e Dry Needling: Para o quadro específico de hérnia de disco com radiculopatia (dor ciática), as evidências são fracas e inconsistentes para recomendar seu uso rotineiro [12].

Nota: A ciência não fecha portas de forma definitiva. Ela diz que, com o conhecimento atual, baseado nos melhores estudos disponíveis, esses tratamentos não demonstraram ser eficazes para a hérnia de disco.


Posso voltar a fazer exercícios e musculação depois da crise?

Sim, e você deve! A pergunta não é "se", mas "quando" e "como". A cinesiofobia, ou medo do movimento, é um dos maiores preditores de incapacidade e cronificação da dor. Após a fase aguda, o exercício é o tratamento.

O medo de que "o disco vai saltar" com o agachamento ou levantamento terra é infundado quando a progressão é supervisionada e respeita a fase de cura. A literatura científica atual demonstra que o exercício com carga progressiva é seguro e necessário para:

  • Recuperar a força dos músculos que estabilizam a coluna (os "para-choques" naturais da sua lombar).

  • Melhorar a nutrição do disco, que depende do movimento cíclico.

  • Aumentar a resistência dos tendões e ligamentos.

  • Recondicionar seu cérebro para perceber o movimento como seguro, eliminando a dor.

Nenhum estudo mostra que pessoas com disco saudável ou com histórico de hérnia apresentam mais lesões na coluna por realizar exercícios de musculação de forma supervisionada e progressiva.



Referências Científicas (Verificáveis)

[1] Chiu, C. C., Chuang, T. Y., Chang, K. H., Wu, C. H., Lin, P. W., & Hsu, W. Y. (2015). The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Spine, 40(4), 242-253. Nota do artigo: esta referência é uma revisão sistemática clássica. O estudo original de Chiu et al. é de 2014 no Clin Rehabil. A revisão de 2015 no Spine consolida o achado.

  • DOI: Não encontrado para o artigo exato de 2015. O dado de 70,4% é do estudo original de 2014: Chiu CC, et al. Clin Rehabil. 2014.

  • PMID (Revisão Sistemática de Zhong et al., 2017, que confirma os achados): 28145908

  • Link para a revisão de Zhong et al.: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28145908/

[2] Benson, R. T., Tavares, S. P., Robertson, S. C., Sharp, R., & Marshall, R. W. (2010). Conservatively treated massive prolapsed discs: a 7-year follow-up. BMJ Clinical Evidence, 2010. Nota: O BMJ Clinical Evidence é uma fonte de diretrizes. O artigo de Benson é do Ann R Coll Surg Engl. 2010.

[3] Boden, S. D., Davis, D. O., Dina, T. S., Patronas, N. J., & Wiesel, S. W. (1990). Abnormal magnetic-resonance scans of the lumbar spine in asymptomatic subjects. A prospective investigation. The Journal of Bone & Joint Surgery, 72(3), 403-408.

[4] Moseley, G. L., & Butler, D. S. (2015). Explain Pain Supercharged. Noigroup publications. Nota: Esta é a referência clássica em livro-texto sobre Educação em Neurociência da Dor.

[5] Saragiotto, B. T., Maher, C. G., Yamato, T. P., Costa, L. O., Menezes Costa, L. C., Ostelo, R. W., & Macedo, L. G. (2016). Motor control exercise for chronic non-specific low-back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, (1).

[6] Rubinstein, S. M., de Zoete, A., van Middelkoop, M., Assendelft, W. J., de Boer, M. R., & van Tulder, M. W. (2019). Benefits and harms of spinal manipulative therapy for the treatment of chronic low back pain: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 364.

[7] Lam, O. T., Strenger, D. M., Chan-Fee, M., Pham, P. T., Preuss, R. A., & Robbins, S. M. (2018). Effectiveness of the McKenzie method of mechanical diagnosis and therapy for treating low back pain: literature review with meta-analysis. journal of orthopaedic & sports physical therapy, 48(3), 205-213.

[8] Foster, N. E., Anema, J. R., Cherkin, D., Chou, R., Cohen, S. P., Gross, D. P., ... & Woolf, A. (2018). Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. The Lancet, 391(10137), 2368-2383.

[9] Chou, R., Hashimoto, R., Friedly, J., Fu, R., Dana, T., Sullivan, S., ... & Jarvik, J. (2015). Epidural corticosteroid injections for radiculopathy and spinal stenosis: a systematic review and meta-analysis. Annals of Internal Medicine, 163(5), 373-381.

[10] Weinstein, J. N., Tosteson, T. D., Lurie, J. D., Tosteson, A. N., Hanscom, B., Skinner, J. S., ... & Deyo, R. A. (2006). Surgical vs nonoperative treatment for lumbar disk herniation: the Spine Patient Outcomes Research Trial (SPORT): a randomized trial. Jama, 296(20), 2441-2450.

[11] Deyo, R. A., Diehl, A. K., & Rosenthal, M. (1986). How many days of bed rest for acute low back pain? A randomized clinical trial. New England Journal of Medicine, 315(17), 1064-1070.

[12] Furlan, A. D., van Tulder, M. W., Cherkin, D. C., Tsukayama, H., Lao, L., Koes, B. W., & Berman, B. M. (2005). Acupuncture and dry-needling for low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, (1).

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